Terça-feira, Agosto 07, 2007

Velhos tempos

BELENENSES 0-2 VITÓRIA FC
(1ª Divisão, época 68/69)

TERMINAR EM BELEZA UMA SEMANA HISTÓRICA

CRÓNICA de AURÉRLIO MÁRCIO, no JORNAL “A BOLA”

Estádio do Restelo, em Lisboa.
Árbitro: Manuel Fortunato, de Évora.
BELENENSES - Mourinho; Assis, Quaresma, Murça e Esteves; Luciano, Saporiti, Cardoso, depois Sérgio e Godinho; Laurindo e Ernesto, depois Valter.
VITÓRIA F. C. - Vital; Conceição, Cardoso, Alfredo, e Carriço; Tomé, José Maria, Wagner, e Jacinto João; Guerreiro e Figueiredo.

Primeira parte: 0-1, golo marcado aos 38 minutos.
Godinho desceu até à sua defesa para carregar irregularmente José Maria, originando um «livre» perto da bandeirola de canto. Tomé marcou-o, a bola foi cair em frente da baliza dos lisboetas e perante a apatia da defesa, JACINTO JOÃO baixou a cabeça e marcou.
Segunda parte: 0-1.
Aos 14 minutos, Sérgio substituiu Cardoso, no Belenenses e Figueiredo foi rendido por Vítor Baptista, que alinhou a meio do terreno, passando José Maria para o ataque.
Aos 20 minutos, Valter substituiu Ernesto e, aos 33 minutos: 0-2.
Mutação rápida do ataque setubalense parecendo Tomé e José Maria deslocados, não assinalados, aliás, pelo fiscal de linha, nem protestado pelos lisboetas, pelo que admitimos nos tenhamos enganado. A defesa do Belenenses, completamente parada, permitiu que JOSÉ MARIA, à vontade, depois de preparar a bola, aplicasse um remate, de bico e batesse Mourinho, pela segunda vez. No minuto seguinte, Herculano substituiu Wagner.



Para terminar a semana heróica do Vitória, nesta sua brilhante campanha nacional e internacional, em que defrontou primeiro o Benfica, em Setúbal, depois a Fiorentina, em Florença o «onze» setubalense deslocou-se ontem ao Estádio Municipal do Restelo para enfrentar o Belenenses, uma equipa em período de valorização, bem capaz de travar a brilhante série do Vitória e de empanar, portanto, uma série de bons jogos qual deles o mais brilhante.
Muito público acorreu ao Restelo para presenciar o desafio, que se previa, por tudo isto bem disputado, de resultado incerto e de interesse aumentado pelas peripécias que rodearam o regresso do Vitória na sua viagem desde Florença, a fazer pelejar a sua presença nesta décima sétima jornada do Campeonato Nacional. Aliás, o clube setubalense portou-se com muita dignidade nesta emergência, pedindo o adiamento e como ele não foi atendido, decidiu não insistir, resolvendo-se, sem mais problemas a cumprir o calendário da prova. Fez muito bem e tudo acabou Por sair à medida dos seus desejos: resultado e exibição. Melhor. Talvez o jogo tenha excedido o que os setubalenses pensavam dele, desde a vitória suficientemente expressiva para marcar a supremacia da sua equipa sobre a do adversário até à exibição que chegou a lances esplendorosos especialmente durante a primeira parte, quando o jogo foi sistematicamente controlado pelos setubalenses, raramente deixando que o adversário tivesse a iniciativa e impusesse um ritmo que poderia ter perturbado a habitual mecanização do futebol setubalense.

Jogos d’ontem

As duas equipas, recebidas à entrada do terreno com fartos aplausos e a do Vitória também com alguns assobios à mistura, não sabemos porquê sendo de salientar o carinho com que está a ser rodeada esta tentativa de ascensão do «onze» setubalense aos lugares cimeiros do futebol, as duas equipas, dizíamos, adoptaram sistemas cautelosos, mais assentes no «4x4x2», como base na partida para os lances ofensivos, parecendo temerem-se uma à outra ou então não estarem bem certas da supremacia de cada qual sobre o adversário.
Atendendo ao conhecimento prévio lidadas de o Belenenses impor-se ao adversário teriam de assentar em velocidade, aplicação, determinação, dado que o conjunto setubalense, mais aperfeiçoado, mais certo, mais introduzido na equipa não poderia ser posto em causa pelos seus adversários. Poderia ainda acrescentar-se que as circunstâncias que rodearam o regresso do Vitória a Lisboa, depois do jogo de Florença, teria naturalmente afectado a capacidade atlética e a resistência dos seus jogadores, fazendo sobressair, durante a partida de ontem, um estado de fadiga propício a anular a sua vantagem sobre os lisboetas. Esperar-se-ia, por isso, atendendo a tudo isto, um ritmo de jogo muito vivo dos lisboetas, tentando, a um tempo, furtar a iniciativa de jogo aos setubalenses, impedindo-os de jogar segundo a velocidade que mais lhe conviesse e obrigando-os a correr, atrás da bola e adversário, fatigando-os e não lhes permitindo a imposição da sua maneira de jogar.
Pois bem. Não aconteceu nada disto. O que se viu foi o Vitória dominar o jogo, desde o primeiro minuto, controlando-o nos seus pormenores mais insignificantes, com a retenção da bola, a sua entrega, o passe longo e curto, o apoio preocupante ao jogador de posse da bola e a harmonia do conjunto, subindo e descendo os jogadores, em auxílio à retaguarda e apoio à frente, de forma que nunca houve grandes espaços livres para o adversário manobrar nem para os setubalenses preencherem. Enfim, um regalo esta exibição do Vitória num dia em que as deficiências se poderiam desculpar por motivo das atenuantes atrás apontadas. Paralelamente, a esta demonstração de bem jogar e de controlar o jogo, poder-se-á dizer que o Vitória não criou situações de golo em número proporcional ao seu domínio, à sua exibição. Mas outro tanto aconteceu aos lisboetas nas suas débeis tentativas de ataque à baliza de Vital. O jogo decorreu portanto à medida dos setubalenses, conforme eles quiseram e desejaram. Antes do primeiro golo, multo consentido pela defesa do Belenenses, pois Jacinto João até teve de baixar-se para marcar, de cabeça, o Vitória só uma vez, em jogada do Figueiredo, tivera uma situação remate de golo possível. E depois do golo, até final do primeiro tempo, voltou a não haver novas oportunidades. Aliás, o golo dos setubalenses apareceu na sequência de um «livre», por sua vez sequência de uma série de «livres» provocados pelos lisboetas por entradas irregulares sobre José Maria, figura predominante do jogo.
Na segunda parte, o jogo foi menos atraente, pois o Belenenses, mais incomodativo, menos submisso, correndo mais, enquanto pôde, perturbou, por isso mesmo, o jogo mecanizado dos setubalenses. Pensou-se até que o Vitória iria encontrar dificuldades em impor o seu ritmo, como na primeira parte. Mas não, pois durou pouco a velocidade dos «azuis», e o jogo ficou praticamente decidido, praticamente e efectivamente, quando José Maria elevou o marcador para 2-0, num lance que nos pareceu precedido de deslocação, não assinalado pelo fiscal de linha nem notado pelos próprios jogadores lisboetas, o que talvez signifique, pura e simplesmente, termos visto mal o lance...
De qualquer forma, o Belenenses não jogou melhor nesta segunda parte, mas confundiu mais, por correr demasiado. Talvez se a equipa tivesse adoptado este estilo durante a primeira parte as coisas se tivessem passado de maneira diferente. Talvez...
Uma bela equipa. Não damos nenhuma novidade se dissermos que o Vitória está uma excelente equipa de futebol, com sabedoria, experiência, resistência, ritmo e maturidade. Se não se desfizer e mantiver o mesmo técnico, será, na próxima temporada, candidata ao título desde a primeira jornada. Por agora, é já um «conjunto» dos mais prestigiosos do nosso futebol. Os grandes jogos internacionais deram ao «onze» do Vitória a experiência, o hábito das grandes competições que só os desafios no estrangeiro transmitem ao jogador e o fazem perder aquele «provincianismo» perdoe-se a expressão, que é um grande mal dos nossos clubes, excepção feita ao Benfica, quando joga no estrangeiro.
Jogo sem preocupações, jogado na calma e na tranquilidade, toda a equipa revelou a sua grande categoria, mas José Maria terá sido o melhor jogador sobre o terreno, exibindo uma «forma» e uma categoria excepcionais, tornando-se o «pivot», em volta do qual gravitou toda a acção ofensiva da equipa. Verdadeiramente, na equipa do Vitória, apenas os homens da área, Guerreiro e Figueiredo, por muito vigiados, não puderam sobressair.
O «onze» do Belenenses está nitidamente a assimilar um novo modo de jogar, abolindo a correria, fazendo da bola a figura central do jogo, com trocas, passes retenções, mas claro, como se compreende, isso vai levar o seu tempo e ontem, estaria condenado frente ao conjunto mais aprimorado dos setubalenses, porque, como se entende, não poderia competir nesse pormenor, com o seu adversário.
A equipa lisboeta foi bem batida, sem motivos para desânimos nem decepções. Perdeu perante um conjunto que é hoje dos mais fortes do nosso futebol. Quaresma pareceu o jogador mais certo e de rendimento mais uniforme em toda a partida. Boa arbitragem do Sr. Manuel Fortunato, de Évora.

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